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Milho faz a alegria de 50 mil hoje em Jaci

“Os grãos estão todos juntos, um ao lado do outro, recobertos pela palha, que simboliza para mim a proteção divina”
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Milho faz a alegria de 50 mil hoje em Jaci
Jaci, 8 de março de 2009

Edvaldo Santos  
‘Parque do Milho’ chega a reunir 10 vezes mais a população de Jaci

LUCAS LOURENÇO

04:10 - Na Festa do Milho de Jaci, todo ano tem uma novidade culinária. A desta edição é o escondidinho à base de milho verde, que se junta ao macarrão, ao nhoque, à coxinha, ao beijinho e a outros 20 quitutes feitos do mesmo cereal nas 57 barraquinhas do evento, que comemora 20 anos em 2009. Organizada pela Associação Lar São Francisco de Assis na Providência de Deus, a festa acontece hoje e no próximo domingo, das 8 às 18 horas. Além do escondidinho de milho verde, a festa traz outra novidade. Pela primeira vez, o espaço oferece estacionamento próprio. Desta maneira, as cerca de 50 mil pessoas esperadas para o evento, não precisam mais parar os carros à beira da rodovia, como ocorria nas edições anteriores. Carros e motos pagam R$ 5 e ônibus R$ 20. Um ônibus vai transportar os visitantes do estacionamento até o Lar, sede do evento. “Assim, nossos visitantes ficam mais à vontade e não temos o risco de ter gente caminhando perto da rodovia”, disse o criador do Lar e idealizador da festa, frei Francisco Belotti.

Por causa da festa, Jaci recebe 10 vezes mais pessoas que o número normal de habitantes. Famílias inteiras e excursões vão à cidade para provar os salgados e doces que levam milho em todas as receitas, sob custo médio de R$ 2. Almoços completos saem por R$ 8. Tais delícias, porém, não chegam a ser provadas por aqueles que trabalham no dia do evento. Não sobra tempo. “Eu só como depois que o dia termina. Entramos na cozinha à meia-noite de hoje e saímos só depois das 18 horas”, contou o frei. Tanto trabalho não é visto como um empecilho pelos cerca de 1,5 mil voluntários. “Para mim é muito gratificante. Minha família toda vem ajudar”, diz Iraides Martinelli Santos, 50, que participa da festa há 10 anos é considerada a mais ágil em separar os grãos do sabugo do milho. O segredo é o instrumento de trabalho. “Esses dias me disseram que eu tenho mais ciúme da minha faca que do meu marido.”

Edvaldo Santos
Voluntários descascam a matéria-prima da festa, o milho; evento, que comemora 20 anos em 2009, dispõe nesta edição de um estacionamento próprio


Outros atrativos
Além de se esbaldar nos mais variados tipos de comida feitos de milho verde, os visitantes também desfrutam de passeios a cavalo ou boi, além de um trenzinho que percorre as instalações do Lar. Para as crianças, há a fazendinha, com porcos, cavalos, cisnes, pavões, pôneis, vacas, coelhos e avestruzes. Cama-elástica, pula-pula e um tobogã também são opções. Shows informais de duplas caipiras e cantores de barzinhos têm seu espaço garantido. Quem quiser se apresentar é só chegar e mostrar o trabalho. Vale deixar claro que ninguém, porém, recebe cachê. Espaço de expositores e barraquinhas de ambulantes também podem ser visitados.

Arrecadação
O lucro da festa é revertido para as 34 instituições administradas pela Associação Lar São Francisco. “Com este dinheiro compramos desde equipamentos de hospitais a materiais de limpeza”, conta Belotti. Porém, ele revela que a festa não é a principal fonte de arrecadação. “O evento funciona como um chamariz. Depois que ele termina, recebemos uma abundância de doações, que vão desde roupas a terrenos e veículos. São tantos donativos que repassamos para outras instituições. É isto que na verdade nos sustenta”.

Edvaldo Santos
‘Descobri quem eu sou aqui’, diz Elizabeth de Oliveira

Elizabeth renasceu no lar de Jaci
Elizabeth de Oliveira, 49 anos, é coordenadora de uma das unidades de reabilitação da Lar São Francisco de Assis na Providência de Deus. Na Festa do Milho, ela trabalha como voluntária na padaria. “Amo o que faço. Não troco por nada”, afirmou. Oito anos atrás, a situação de Elizabeth era outra. Ela chegou ao Lar vinda de São Paulo para se livrar do alcoolismo. “Passei nove meses e 18 dias internada. Descobri quem realmente sou aqui. Hoje em dia, não comemoro meu aniversário e sim a data de meu renascimento, 15 de fevereiro, dia em que fui internada”.

Ela abandonou o emprego de gerente e estilista de uma loja de vestidos de noiva na capital paulista e hoje é um dos cinco mil habitantes da pacata Jaci. “O que eu ganhava num sábado de trabalho em São Paulo eu não ganho em um mês aqui. Mas não troco de jeito nenhum”. Elizabeth saiu da internação e menos de um mês depois começou a trabalhar no Lar. Para ela, o lema do local é uma lição de vida. “Encontrei aqui o abraço ao leproso. O vício, a droga, são a lepra dos dias atuais. Só tenho a agradecer a Deus por ter me mostrado o caminho.”

Evangelização
Além de oferecer mais de 30 pratos desenvolvidos a partir do milho, a festa em Jaci também abre espaço para a evangelização. “O visitante pode encontrar no espaço do evento um lugar para aumentar sua espiritualidade”, afirmou o frei Joel Souza, que há 10 anos trabalha no evento. Em cada um dos dois domingos de festejos, quatro missas são rezadas - às 6h30, 11h, 13h e 15h - na capela São Francisco de Assis. Além disso, três padres fazem confissões e uma equipe da Pastoral da Escuta está presente. “Quem quiser desabafar, receber conselhos e orientações pode nos procurar”, contou o frei Paulo Batista.

Edvaldo Santos
Frei Francisco Belotti, o idealizador: ‘Festa segue modelo familiar. Todos dividem o que tem’


Evento é inspirado em reunião familiar
A Festa do Milho de Jaci, organizada pela Associação Lar São Francisco de Assis na Providência de Deus, completa 20 anos de criação em 2009. Para o idealizador da festa e fundador do Lar, frei Francisco Belotti, a data serve como retrospectiva. “A festa seguiu desde o início um modelo familiar. São pessoas que se reúnem para dividir o que tem”, explica Belotti. A inspiração para a criação do evento surgiu do modo de vida dos jacienses. “A cidade em sua maioria é composta de imigrantes italianos que, aos domingos, reúnem a família para saborear pratos à base de milho, como polenta e cural. Eu era convidado em alguns almoços e me questionei se era possível criar um evento todo à base de milho”. A primeira festa aconteceu em 1989, no Parque do Peão. “Deu tanta gente que a barraca de pamonha foi ao chão”, lembrou o frei. A segunda foi montada no salão paroquial e, a partir da terceira, o evento mudou-se para a sede do Lar, onde ocorre até hoje.

No início, as sacas de milho eram doadas pelas famílias. “Vinte anos atrás, não tinha plantação de cana-de -açúcar na região. O povo cultivava milho ou café. Recebíamos muitas doações”, disse Belotti. Hoje, o lar tem de plantar as espigas que utiliza. O frei emociona-se ao lembrar o que move a festa. “Começamos os preparativos desde que a primeira semente é plantada. No dia da festa, trabalham mais de 1,5 mil voluntários. É muita gente nos ajudando a manter as 34 instituições que cuidamos. O público reconhece o esforço e nos prestigia todo ano.” Para Belotti, a espiga do milho representa esta união. “Os grãos estão todos juntos, um ao lado do outro, recobertos pela palha, que simboliza para mim a proteção divina”. O frei lembra que o milho é a base alimentar de diversos países. “Além disso, tudo dele se aproveita. Para muitos, ele é o sustento da vida.”

Fonte: Diário Web - http://www.diarioweb.com.br/noticias/corpo_noticia.asp?IdCategoria=62&IdNoticia=119325


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